terça-feira, 17 de novembro de 2009

"Um Trato Retrô"- Conto;ficção literária

“Um trato retrô”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Nas semanas depois do acidente tudo estava confuso, sobretudo a identidade dela, sua auto-imagem. Cirurgias seguidas, rotinas alteradas e intoxicação medicamentosa – dessa geléia plasmada na pressa, na dor e na urgência, precisava extrair uma nova matriz identitária, urgente, na pressa; com dor e tudo. Tempo lhe sobrara, um tempo flácido de esperar o tempo passar entre as pontualidades dos remédios, das consultas. E foi nessa oficina do capeta que surgiu a idéia de juntar suas fotos três por quatro e organizá-las numa tomada de vista única. O efeito foi arrebatador. Tudo lá, simultâneo e chancelado pelo olhar oficial de fotógrafos profissionais lidando com o que chamavam de “o cu da profissão”. Ei-la, em fotogramas manchados por marcas de carimbo, distribuída pelo tempo linear; comovente – retratos, só.
Só? Uma constelação de achados sobre si mesma. Ela, uma pedra Roseta a lhe propor uma espécie de arqueologia do próprio rosto; a convocá-la à descoberta de recorrências e revelações tão sutis sob a lupa da maturidade. Sim, o retrato oficial é um tipo de seqüestro da imagem, constatou. O negativo entregava, pelo afã do bem-parecer, os desastres todos que, foto a foto, repetiam-se na captura de um rosto angustiado aqui, outro tão amargo mais adiante, tão falso-relaxado por vezes. Tão pouco e muito – ela, sempre. Sempre o desafio de contornar a precariedade do registro com algum artifício improvisado. Sorriria? Posaria solene conforme o destino institucional do retrato – um RG, uma CNH, uma matrícula. E sempre só mais tarde a idéia de que aqueles retratos que a precederiam em inscrições e situações protocolares, numa surpresa perpétua ou quase, fariam a reedição de sua pertença por um rosto que já pouco lhe pertencia.
Mas a visada agora era diferente. Tratava-se de lançar mão do que fosse a potência de alguns traços, de reeditá-los mentalmente e construir um compósito de rosto certo, autêntico e quase heróico por ter sobrepujado a aflição dos momentos alinhavados, com vistas a moldar um rosto leal a si mesma, abstraída a linha do tempo.
Com tantas restrições de movimento, de ações mínimas do rosto, vinha notando um empobrecimento da gestuária e da expressão facial. Reduzido a deslocamentos estereotipados, o rosto que emergia do colar cervical levou-a a perceber-se como uma tartaruga ou com uma pomba de anel no pescoço. Os olhos, olhos apassivados, acomodando-se à passividade, oscilavam entre a máscara da dor e a contemplação resignada dos momentos de trégua. Assim, somado à construção do compósito redentor, ocorreu-lhe eleger uma dentre as fotos para identificar-se com ela, imitar-lhe o semblante e recriar alguma vivacidade, alguma expansão a partir do que jazia capturado ali, eivado de vida. Parecer-se consigo, imitar as ações correspondentes, injetar-se vida. Mas vida lastreada, avalizada por uma biografia retrospectiva. Ideal e fiel ao que fora, um dia, a máscara que melhor podia representá-la para o olhar do mundo administrado que lhe exigira os retratos desidratados de vida. Vida seca? Ora, vida...
Estava há horas no editor de fotos, olhos secos, pernas dormentes e completamente magnetizada. É este! E no exato momento em que proferiu a escolha percebeu-se impregnada pelo repertório completo subjacente ao retrato. Agora chega, Vilma – a voz firme e benevolente do marido – Faça algum alongamento, você está impregnada de remédios opíóides, do campo eletromagnético do computador, de inércia! Vilma, chamada pelo nome, sem apelidos, diminutivos, girou a cabeça na direção da voz e, plena de seu repertório resgatado, ergueu a cabeleira com as duas mãos, lançou-a para trás, sorriu mordendo o cantinho da boca e, sedutora como aos dezessete, elevou os olhos para o teto em busca de um vazio prontinho para ser colonizado por uma fala nova. Original porque a origem era ela; original pela ruptura com as falagens mornas com que vinha recobrindo sua convalescença:
-Impregnada, ual! Opióides, é? Já acabei aqui, vou passar um protetor e tomar um sol; fodam-se os edemas. E mais, uma cervejinha ou duas não vão me matar.
Na tela, a vestibulanda audaciosa, cheia de verdades indizíveis e congelada no tempo, emanava vibrações e hormônios tempestuosos e...vida, direto para essa nova Vilma, já publicitária interrompida , libido em concordata e um calvário por rotina aos trinta e oito, incompletos. Na tela, a Vilma poderia secar, diria um Oscar Wilde. Um trato; belo trato dionisíaco em plena vigência do tratamento apolíneo. Vida chama vida, ora. E ecos de leituras juvenis ocupavam seus devidos espaços na parte de dentro da cabeça, em cujo rosto pálido, os olhos agora cintilavam.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Um "Fantasia" para a PORTAL FUNDAÇÃO

Eu?

Por Marco Antônio de Araújo Bueno


Me? Se me virem fazendo barulho é que deu briga. Tenho pouco tempo pra estar nas coisas que não prezo muito. Só queria meu lápis vermelho, por fora, que por dentro tem meu traço da infância. Pencil, pensei – o veneno dele vinha do grafite e eu deixei perder tudo numa aulinha, num lanchinho do curso de inglês. Vim buscar o meu costume de sempre, só. E topo com esse turbilhão na idéia. Não entendo a filosofia dessas pessoas, querendo sempre o mesmo feijão, de tempero igual. O jeito de fazer o tempero muda sempre, mas não comem o jeito, mandam o mesmo requentado goela adentro para ficarem parecidos com eles mesmos. Quase derrapo nesse erro. O lápis trazia meu traço de infância. Procurei até ficar nervoso e vir aqui, e, aqui, entendo que outro lápis pode dar em outro jeito de infância, que esta não muda nunca. Um distanciamento, uma maturidade sobre as mesmas paisagens; fiz meu trabalho, ficou bom sim, mas quero meu vermelhinho, meu talismã. Estou desprendido dele agora e ele ficará à vista, num pote grande, de grandes pincéis inúteis. E como a infância não desgruda de mim, essa barulheira toda é para marcar uma mudança de tela, para jogar umas cores nessas caras de azulejo.Precisava mesmo metralhar pigmentos, questions-tags se quiserem, contra essa idéia de comer requentado, de temer temperos desconfortáveis, têmperas de um deslizar incômodo. Por exemplo, essas ilustrações que eu compro nas apostilas e que ficam agredindo meu senso de alguma coisa verdadeira, de cara limpa... Pois chega dessa merda, eu não aprendo com essa merda e a cara de vocês me causa pena de mim mesmo. Se respeito quando ficam ridículos atrás de um chupa-cabras, de um blutufe encharcado de material que nem é seu, ilustrado por um idiota de avental, então por que dar risada de quem procura seu lápis sossegado? Filhos da puta, robozinhos de merda, don’t you? Quero a porra do meu vermelhinho porque inventava coisas com ele, ora. E os caras me zombando: - “Is the pencil red? Are you shure?” – o caralho é red, o lápis é cinza 0,7, ignorantes. E vai voar apostila e notebook nessa espelunca se meu lápis não aparecer!
Se quero um copo d’água, quero sim, mas pra jogar na tua cara e ver borrar esse olho de peixe morto, tia. Tia... ridículo eu aqui, cumprindo as vontades de uma menina bobona, eu repetente, sempre. Repeti o terceiro ano três vezes, três vezes três, nove e noves fora, zero. Zero de recurso, zero de Geografia, zero na carteira pra conta da luz. Já estudou matemática com vela? Dependendo da posição dela, dependendo do vento, uma equação vira um animalzinho esperto, os olhinhos vivos, procurando umas figuras, mais amiguinhos. Eu só ficava aceso assim, imaginando, temperando minha tristeza de ser deslocado, com as figuras que já estavam inventadas, mas uma luminária vermelha como a do Robson não mostrava. “Vira ela assim, torce pra lá, olha agora... Deu pra ver?”. Não, não estava vendo nada e a mãe dele achando que aquela luz era sacanagem sexual, idéia minha – só podia dar nisso, estudar com moleque mais velho, dispersivo: -“Repete de ano e fica bulindo com meu filho, retardado!”. Hoje penso no tanto de sombra naquela cabeça de mãe novinha, que parava em casa e trazia lanchinho, os peitinhos loiros aparecendo na camiseta moderna.
Essa espelunca tem cheiro de lanchinho, de achocolatado. Se a Geografia ficou me atrasando a vida, as equações viraram personagens, lagartos com língua bifurcada, dinossauros. E o Inglês da tia não é pra mim, é pra cumprir minha palavra na editora. Acho que a “tia” se enjoou desse cheiro e fica no passo do que ela adivinha por baixo desta bermuda estampada, um caralho bem red, gostoso como a rebolada pra escrever morango em inglês, de pé, na lousa. Quer que desenhe, tia? E todo mundo rindo com ela vermelha, raiva de mim, tesão de mim. Ora, tia, uma fruta tão simples, nunca viu madura assim? E se encostando levinho na perna dela, só pra sentir a macieza duma tela em branco, e ela, a dureza duma vida de verdade, com cheiro de Tietê, de Marginal atravessada a pé pela Ponte do Limão, pra chegar naquele prédio com símbolo verde com meu lápis vermelho só, e pureza de grafite por dentro. Cumpria passar vergonha de escrever “s/ número” no endereço e a palavra saía com duas línguas sibilando como lagarto. E “profissão” saía com cedilha, encolhida de constrangimento. Falta o Inglês... Será mesmo que falta? E se der um bico nesta porra e fizer barulho entre as pranchas, esparramando tecnologias pelas baias dos colegas: - “Eu faço isso aqui de olho fechado e faço melhor que todos vocês. Ok? Então não vai ter Inglês pra inglês ver, certo?”, e voltava aqui só pra comer a “tia” sibilosa... Desprendido do meu lapão vermelho-red, sujo de tanta imaginação, eu lá do outro lado da Marginal vendo a minha infância chorando de desamparo. Foda-se a infância, vou chorar alto; vou chamar pro pau! You liked these, don’t you, belo rabo?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

"O Preto" -Conto sci-fi inédito para o PORTAL FUNDAÇÃO

“O Preto”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Sim, evito mesmo contar o que se passou com aquele humano que, por causa da Síndrome do Infravermelho, ficou conhecido como “o Preto”. Trago ainda nítidas as sensações de horror que me provocaram os detalhes horripilantes da história de suas últimas horas de vida na Terra, alguns até registrados, em seus detalhes escabrosos, pelo dispositivo sensório que portava como condição para prestar serviços naqueles antigos complexos de escambo de mescadorias-refugo, de resíduos arcaicos da tecnologia da época da convergência de meios digitais.E nada tinha que ver com a pigmentação da pele, da produção de melatonina nele, mas com o GPS; não aquelas engenhocas também antigas de localização, e sim com a sigla que remetia a fenômenos relacionados ao Gradiente de Pressão Social , se é que se recorda dessas tentativas ingênuas de compreender-se a velha desigualdade social. O Preto habitava regiões esquecidas pelas reformas mais comezinhas, falava num dialeto alheio à linguagem universal e deslocava-se até o Complexo Sigma por infectos veículos de superfície, sujeito à chuva ácida e às aberrações climáticas de então. Consta que agia como um desafiador dos protocolos vigentes e era dono de uma coragem quase proverbial.
Assim foi que não se intimidou com a valentia robótica de seu parceiro de bancada naquele Box-37/anexo - 15, o tal que fazia fundo com toda a tubulação e a capilaridade da planta baixa do complexo, onde agonizou em cenas que fundiram a escatologia do drama pessoal dele, com o escoamento dos dejetos todos, mais a amônia que vazava, fora de controle.Às vezes viajo no tempo e imagino que ele tenha sido um emblema extemporâneo do tipo de estigma racista ancestral dos tempos em que nos restava alguma fatia da camada de ozônio; delírio de pesquisador melancólico. É que essa história, além de repugnância e náusea, causa-me tristeza, também extemporânea.
O Preto ficou para mim como o signo de uma resistência ao que me estremece pelo obscurantismo, ao que me assusta pela dilatação da experiência diante do insólito, da coisa cotidiana que se transforma num pesadelo, numa monstruosa combinação de infortúnios. A luta visceral dele resultou na crueza da exposição de suas próprias vísceras aos olhos e às narinas de uma escória mercantilista, robotizada, oriunda da imundície atolada nas práticas mais abjetas. Não por acaso ele retorna sempre à fantasmagoria desses submundos, como massa disforme de sangue pisado ou como um guerreiro nobre, em estado eterno de putrefação. Pois ele, conta-se, não se intimidou nem com o GPS que o desfavorecia de forma truculenta, muito menos com as ameaças de agressão de seu parceiro de Box, no Sigma. Enfrentava o primeiro perseverando no incômodo com certo cinismo, até. O outro, ele enlouqueceu de pavor, com a renitência da presença insuspeita de seu próprio cadáver insepulto por dias intermináveis de angústia, suspense e coexistência com a sensorialidade do repugnante, do asqueroso.
O martírio dele foi uma vingança requintada, ele era durão, você pode pensar; não foi bem assim. A princípio ele era maleável, dócil até, quando o parceiro explicava-lhe as regras tácitas que regiam as transações no local, advertindo-o que ele até poderia atingir alguma cota nas operações, desde que não atravessasse o limite. Que limite?
Ele próprio não sabia, nunca saberia. As transações já chegavam pré-agenciadas e o local físico servia apenas para inspeção visual e tátil da mercadoria. Isso mudava o rumo da negociação, às vezes. Aí entrava o carisma do Preto, que falava baixinho, macio, quase que integrando sua corporeidade às muambas, dando-lhes significação adicional, vida própria. Uma prática milenar, aperfeiçoada pela cultura oral; comum aos sobreviventes que chegavam a mimetizar a geografia mais áspera e a ambiência mais hostil conferindo-lhes alguma simpatia, infundindo-lhes algo de mágico. A sossegada magia dos distraídos, daqueles que vivem de domar o susto de viver rente à vida, ao vão das coisas. O Preto não se sabia assim. Sabia que não era daquela estirpe e que morava longe. Também sabia que não tinha medo de trombar com a vida. Não teria medo de ameaças torpes, insinuadas. Vivia sob pressão – mão estendida para o afago, punho cerrado para o soco – continuava a viver, continuava sempre. Continuou ouvindo que, continuando assim, catapultavam-lhe para outro satélite, para mais longe. Ouviu pela tarde toda que morreria de porrada, que lhe quebrariam os ossos e lhe vazariam os olhos. Quando sorria de medo vago, o parceiro gozava ao contar-lhe como o faria mastigar os próprios dentes, depois que lhe extirpasse os testículos em tração lenta e meticulosa. Então desviava o rosto pro longe e o parceiro mirava a sua jugular e lhe falava de sangue espirrando lentamente e regando seus úmeros retorcidos, como um chafariz. O parceiro era mestre em luta com seres intergalácticos e gostava de anatomia.
Havia algum daqueles recorrentes descontroles horários e o poente demorava a chegar. Os demais agentes foram deixando o Box -37 e os dois ficaram insuportavelmente silentes; um respirava pelo diafragma, o outro, pelo nariz até que o sentisse fraturado num golpe seco. Penso que, neste momento, o sensor acusou alteração no batimento cardíaco do Preto. O que se seguiu é indescritível no que tange aos sons que um humano pode emitir em circunstâncias de dor apenas imaginadas. A pressão arterial despencou e uma música eletrônica pulsante mal abafava estrondos impressionantes. Seguidas fraturas de galho seco, atestou um perito, pela escuta. O corpo parecia arremessado seguidamente contra parede há uns três metros, com uma fúria incontrolável, mecânica. Então, rangido de escada em caracol, pesado e, apenas dois dias depois, pelo vão da escada, alguém notou a massa amorfa, a bola de sangue pisado pelo vão da escada. Mesmo com as perfurações, os olhos pareciam esgazeados.
Sim, a Segurança recebera uma denúncia anônima dois dias antes, um gradil da área externa comum aos boxes fora arrombado. Mas não havia testemunhas. Não consta que o agressor tenha acessado os bastidores do Box nesses dois dias. Nada consta quanto aos operadores da Segurança do Sigma que desapareceram desde então. Nenhum filete de expressão na face estertorada de quem descobriu a bola humana em que se transformou o Preto. Tal como o parceiro, que, por dois dias, manteve-se sentado diante de seu monitor, catatônico como sempre, quem viu o Preto nunca mais viu mais nada.
Inverossímil, porém, é forma como descreveram seu desaparecimento, dois dias depois, num outro poente irregular – dirigiu-se à área externa e ricocheteou desbussolado como uma bexiga de gás até sumir da vista. Estranho isso...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"DESLOCALIDADE"- uma distopia saída do forno

“Deslocalidade”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Todos nós aqui, que escolhemos ficar por aqui, conhecemos este litoral por “localidade”; um consenso, uma forma simbólica de garantirmos certa sobrevida junto ao inóspito. Meio abstrato enquanto referência territorial, seus contornos são dados pela imaginação, mais que pelas balizas naturais ou pelo próprio pedaço de oceano ali em volta. Alguns dizem “ah, aquela localidade...”, e isso apenas contribui para adensar a aura cartográfica daquele recorte, ardilosamente próximo dos perigos do mar. Falaram também no risco radioativo, no geológico, mas temem mesmo, garanto, é a fantasmagoria sobre aleijões que aparecem de repente, aqui ou ali, sobreviventes genéticos, assustadores de incautos. Sobre estes seres, necessário for, contarei depois.
Não sou um nativo e, mesmo assim, quase todas as lideranças, acanhadas ou hostis, respeitam minha presença e meu jeito de viver. Estou sempre distraído, perambulando e cantarolando num tom quase inaudível, porém ritmado e resoluto. Meu semblante não interroga, não interfere. E sabem que não ando a esmo. Sabem que tenho meu lugar na localidade, apesar de ser um nômade e um sobrevivente, como eles todos. Cultivei também uma aura em torno do meu deslocamento incessante. E a temem, assim como temem qualquer inseto, qualquer planta que exale determinação de viver. Se minha andança ritmada tem um propósito, não é maior que o de permanecer vivendo. Meu tarefário não se sobrepõe ao de qualquer outro ser, aberrante ou não.Não me compadeço nem me enojo. Principalmente, não me entrego ao tédio. Isto os assusta.
Pois bem, matei um ser. Ou uma experiência abortada e tornada monstro que saltou sobre mim nas escarpas onde busco provisões, pois, do oceano, só espero catástrofes. Matar um coiso por aqui, lancetar um pós-humano de linhagem não seriada, equivale a retirar um espinho cravado entre as costelas. O seguir adiante alivia a dor, o tédio; nunca pesa, como se dizia um dia – moralmente. Desta vez, nas escarpas, foi diferente, algo de substância moral anda assombrando-me, tortuoso como o desenho labiríntico das encostas. Caminho mais pesado desde então, contorno algumas aldeias e, não raro, me pego confuso, despistando minhas próprias pegadas. Do mais prazer que obtinha quando, acolhido nalgum desvão, contava sobre refluxo das marés e, solicitado a decifrar códigos entre virilhas de fêmeas jovens, ejaculava como menino, hoje - medo.
Aquela localidade codificara um padrão tácito de moral e, nele, apoiava-se um padrão de convivência, obscuro, porém regular. Observava tais padrões, e até os animais peçonhentos, até os coisos, ao modo deles, respeitavam meu deslocamento nômade, noticioso de presságios do oceano, alentador pelo cantarolar truncado e tão pulsante. Acima de tudo, respeitavam-me pelos meus registros – o álibi das minhas interações. Eu lhes infundia alguma pureza pelo rigor dos relatos, pela magia da sonoridade que hes espantava o tédio. Pisava com firmeza por causa desse respeito; hoje, por causa do espectro que matei pelo caminho, ando esquadrinhando o espaço com tentáculos lentos e o meu rigor narrativo tem migrando para cuidados obsessivos, quase hipocondríacos. Meus dispositivos de registro, a cada pouco, mais reticentes, lacunares.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Duelo a quem duelo_micronarrativas

9. “Estética da Desfaçatez”

Presidente, outrora empichado, chafurda, senador, no chafariz niemayeriano - sobe-e-desce coerência...


{ Explico: O escritor e exímio microcontista Marcelino Freire está publicando um microconto por dia no Twitter. Equidistante e equivalente, proponho-me à cotejar tal produção, com meus micros de dez palavras, numa proporção de 10/01; ou seja, a cada dez dele, um meu. Ele está no Trigésimo; este é meu nono. Melhor de tudo - duvido que ele saiba da quixotesca empreitada. Ele pretende chegar ao milézimo. E "Eu não sou Pelé nem nada".

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Poema engajado (Ao Serra o que de serra-serra)

"Pneumotórax"
Marco Antônio de Araújo Bueno


“Pneumotórax”

Acetábulo displásico:
Fêmures dardejando
Bacia pouco acolhedora;
Nem um tango argentino,
Tampouco um cigarrinho amigo
Oferecido na trincheira.

‘Meu pai também tinha?’

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"Wharia Avariada"-Conto I da Stalker

“Wharia Avariada”

I

Sempre nos advertia que seu relato não seria nada amigável, mas nada aborrecido, replicávamos. Pegamos nossos rotores e deslizamos em direção ao solário onde, com tamanha transparência e nitidez jamais seríamos notados. Despiu-se.
-“Muito bem, por quê está aqui?”
-“Porque me forçaram.”
-“Sem ironias, isso não é um inquérito. Se cooperar, Task e eu seremos breves. O relatório do Softcare mostra avarias crânio-faciais. Internação voluntária.”
A campânula, toda blindada, reverberou um gemido gutural assustador, depois, silêncio. Tive um pico de pressão e Task crispou seus dedos trêmulos no cabo.
-“Relaxa, rato branco, eu nem comecei, eu nem comecei ainda.” Ria-se.
-“Wharia, podemos interromper e induzi-la à parada crítica. Seu rosto...
-“Meu nome é M’sharia, inpostor, sou paquistanesa de trinta gerações!”
-“Que substância lançaram no rosto, por quê lesaram seu rosto?
- “Porque eu toquei o vergalhão dele com gosto, e ele gostou, ruiu!Ruiu!
Task sussurrou algo, levantou-se e ela o imobilizou com o cabo.Gelei.
-“Agora vou contar tudo, enquanto o rato escuta com todo gosto, não?”
-“Muito bem, não acionei os sensores. Quero escutar sua história, tudo.”


II

Passados uns quatro ciclos, não mais às voltas com pesquisa no Departamento de Cyberantropologia, reenconto Wharia numa das alas do próprio Softcare. Acenou para mim com alguma leveza até, aproximou-se: -“Trabalho aqui, que ironia, não? Sub-coordenadora do grupo de Sexualidade e Robótica de Terceira Geração, cadê seu rato branco?”. Repliquei que fora desativado e se a robótica que estudava não seria a de trigésima geração. Andei catalogando arquivos criptografados sobre o trabalho de um tal Bateson, G. Face à provocação (chequei a suposta origem proto-paquistanesa dela; procedente...) a reação foi inusitada – deu de ombros. Como não me fez advertências desagradáveis, caminhamos juntos pela ala norte e conversamos sobre interface, etc., o que não foi nada aborrecido: “- Como anda a libido dos seus ciborgues?” “-Libidinosa, como a sua, talvez mais matizada”. –“Com as matrizes tão pouco oxidadas que aplicam neles...” – “Está equivocado, muito equivocado, eles referem desejo. Expandimos a memória original. E isso é confidencial, libidinosamente... confidencial, compreende?” Sorriu-me, pela primeira vez. Dei de ombros e ela replicou, ácida: “- Mas que gestuária mais pós-humana, não? Que tal uma bebida gelada? Relaxa, não vai oxidar suas matrizes retrógradas...”. Aceitei, é claro, e mergulhei, gelado, naquele inusitado virtual.


III




“-Achei curioso perguntar do Task, recordar-se dele...”
“-Ele ficou bem assustado com a minha cena, não?”
“-Talvez viajasse nos contornos de suas belas próteses, excitado, talvez.”
“-Mas que conversa solta para um cético, um desplugado, não?”
“Ora, o solário, o meio líquido do cabo. Desejo e medo, você sabe, não?”
“Não me subestime, impostor. Sei que essas cargas não se anulam, daí...”
“Daí você quer conferir, empiricamente, bem solta. Sorriso e prudência!”
“Equivocado, de novo. Já fiz isso, faria de novo. Excitado, impostor?”
“Há algo de memória num vergalhão? Se houver, suponho que haja m...”
Senti ventosas abruptas deslocando-me no espaço, vertigem e dor. Reagi com golpes marciais e ativei as câmeras próximas. Mais um equívoco – Wharia tomou-me se assalto no centro exato de um escotoma – opacidade total, coreografada. Amor..., amortecido pelas fisgadas lancinantes de fratura exposta somada ao odor vaporizado – a
substância gasosa -, ei-la, agindo em meu rosto como agiu no molestador de Wharia...
“-M’sharia, este é o meu nome pós-humano, impostor! E eis seu desejo!”
“-Por quê estou aqui, e não me forçaram? “Pela memória”, replicou-me...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Cortesia da Portal Stalker-um dos quatro contos meus

Baseado de Assis

Escrevi esse conto para a Stalker, baseado no eixo narrativo de um outro, dos anos 60!Não dos anos sessenta do século passado, é claro;a concepção que norteia o Projeto Portal é plasmada na prospecção, no futuro.Refiro-me ao século retrasado!O título dele - "Segunda Vida" - alude a virtualidades como "Second Life", avatares, errepeges. Futuro. Nem Futuro do Pretérito; Futuro premonitório, no campo da narrativa, da fantasia ficcional. Esculpido a Machado. Machado de Assis.Avancei no tempo para alcançá-lo e cheguei a este, baseado em Assis, o brucho que se defuntava na ficção, e voltava pra contar. O que conto ficou assim:







“Tempo Virtual, Mate Real”




Logo que percebeu como tratavam aquele que o aguardava na recepção disparou a tomar providências. Trataram-no por Senhor e se isso não era um código de segurança, era sinal para acionar dispositivos adicionais de etiqueta, protocolos de natureza diplomática. O Senhor que o aguardava não abriria mão de suas prerrogativas, das armas e brasões que o precediam. Mesmo sabendo da farsa daquele cerimonial.
Apresentou-se cordialmente, sentaram-se. Notou que o Senhor evitava o confronto visual e mantinha certa rigidez nos gestos; que não se apartava de seu caixilho 9.0, atrelado ao pulso, por um cordão metálico incrustado de minúsculos ornamentos verdes. – “Relíquias do auspicioso clã, Senhor? bonita peça!” , gracejou para quebrar a formalidade. Mas o Senhor respondeu que não, que se tratava de material explosivo.
Configurava-se uma situação de risco, agora sim, mas não tinha como apartar-se do ilustre visitante para os expedientes cabíveis; um “com sua licença, volto num instante” soaria como um “vou chamar a segurança”. Enxadristas vibrariam com a perspicácia resoluta daquele mate real já anunciado. A saída exigia compostura e raciocínio antecipatório.Uma varredura seletiva em seu repertório de alternativas afins.
Havia, para ganhar tempo, um recurso muito eficiente quando se tratava de representantes de aristocracias e portadores de mutações genéticas que potencializavam a estima pessoal e a vaidade. –“Esses caixilhos 9.0, Senhor, um grande privilégio prevalecer-se de dispositivos tais que permitam inibir nossos sensores, esses, também de última geração, que detectam roteadores de tempo real. O valor dessa máquina!”.
Afastando as mãos como se contornasse o caixilho, expressão mais relaxada no rosto, Senhor mordeu a isca, não sem antes desferir uma ofensa de natureza institucional: - “Seus sensores têm a vulnerabilidade típica das instâncias censoras, aguçam nosso ímpeto de desafiar, de descobrir as falhas do sistema...” A expressão não era de riso; era um esgar malicioso de quem já conta com os louros. Vitória por mérito...
Cintilava nos olhos de ambos um indelével desejo de astúcia, de reconhecimento meritório de astúcia de um – o Senhor -, que demandava aplausos da platéia entusiasta que julgava ter no outro, e deste outro que exalava um devir de sobrevivência e instigava: -“Em nossas idades-Terra, Senhor, meninos é que somos nessas circunstâncias, ávidos por imaginar proezas dessas engenhocas, ardemos de contentes!”.
Senhor, abrindo o painel do caixilho, exultava: -“E já que explodiremos juntos, mal me contenho em excitar sua imaginação: imagina o recurso que usei para enganar seus sensores”.-“ Não alcanço!”. –“Uma singela máscara de interface na área do relógio.”, e abriu o código fonte, inclinando o corpo para o exato quadrante coberto por uma das câmeras de vigilância. O outro ergueu os braços, solerte; -“Desenvolvedor!”
Ao erguer os braços, porém, a câmera registrou o dedo indicador direito apontando para o alto e o esquerdo para o painel do caixilho que escancarava o hackerismo, agora, detectado e desfeito com recuso tão singelo quanto o concebido pelo desenvolvedor – uma intervenção no relógio do sistema e subsistemas coadjuvantes tornava virtual toda a sequência do tempo transcorrido desde a chegada do Senhor...
Quando, já no final daquela troca de amenidades tecnológicas, algo nefasto apontava para o imponderável da missão do Senhor, este, lacrando seu caixilho, retesou-se e proferiu, solene: -“ Hora do fim, colega!”-“Ora, ora, temos tempo, Senhor, uma câmera flagrou e desabilitou a contagem. Para todos os efeitos, não tivemos este encontro porque o Senhor não entrou aqui. Prefere seu chá com leite, seu avatar gosta?”

{Vide www.projeto-portal.blogspot.com }

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Microcontos (dez palavras) para Tweeter

“Aca(l)mada”


Tua mãe se adoentava e trazia homens pra sarar dela.

{Desde ontem, o danado do Marcelino Freire - que andou lendo Mcs meus em oficina do Sesc Campinas e...gostou deles - estará publicando 1 microconto por dia no Tweeter até chegar a mil! Embarco nessa com proposta equivalente e equidistante: a cada dez dele publico um meu, até enloquecermos todos. Prometo jogar a toalha no caso de perceber, nos meus, um comprometimento da narratividade ou um descambar para o aforismo, o anedótico puro, etc.}

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Pasmem com Divulgação Viral do P.Stalker. Tenho 4 contos lá.

Portal Stalker from NEOCRONICA.ORG on Vimeo.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

"Incidente"- Poema de extração oficineira

“Incidente...”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno
(Mote: malvadeza com um animal *)



O disco era novo,
Chang, não – era de casa,
Plantado no chão da casa.

Ouvia o meu disco, voava,
E Chang, plantado nas patas,
Parecia que voava também.

E nem notei o ruído, além,
Que levou Chang em disparada
Atropelando o fio do aparelho no chão.

O fio que me ligava a Chang
Rompeu-se. Nesse dia viu-se:
Pequinês voando por sobre um portão.

(Por tão pouco, cachorro voava...)



* Poema produzido, em dez minutos, na vivência-oficina com o poeta Fabrício Carpinejar (de excelentes recursos metodológico-teatrais),
questionado em seus méritos de verossimilhança e antecedentes objetivos da ação proposta pelo mote (“a escada”), momentos depois, categorizada como desnecessária...
{SESC- Campinas, em 26/05/07}. Parabenizo a iniciativa e questiono o histrionismo que se prevaleça de “a priores” subjetivos e provoque constrangimentos estéreis.É.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

“Nonsensal”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno


Tudo muito ligeiro, da emboscada ardilosa, fisgada por uma premonição, ao momento de perceber o quanto estava desorientado. Indisposto, sobretudo; não apenas fisicamente, mas pela horripilante constatação do grau de indisponibilidade... a si próprio. Mais ainda – pela sua indiferença baça àquela condição limite. A forma como se dirigiam a ele trazia embutida nos gestos estereotipados, uma espécie de repulsa polida, de gentileza protocolar que não escondia o clima de apreensão. Era grave, disso sabiam. Alardeava-se essa gravidade na razão inversa do silêncio em torno. Estava só.
O celular que, implantado faz tempo no dente vinte e sete, fora desabilitado e não emitia sinais auditivos. O campo colocado entre o queixo e o tronco não lhe permitia qualquer inferência sobre a natureza da intervenção que seu corpo sofria, sofrera ou estava em vias de receber. Aparelhagem que o cercava, revestida pelas prudências de uma presumível assepsia, não lhe dizia nada. Nada lhe dizia nada. Não estava sedado, no entanto, nem mergulhado em estado crepuscular de consciência – ele saberia – mas reduzido, inexoravelmente, à indisponibilidade àquilo que o significasse.
Muito rápida e impessoal minha primeira interação verbal com alguém (que aparecera na mesma premonição), de gênero indefinido, semblante inacessível pelo rigor com que se paramentava para colher meu histórico, nada mais vago...
“-Bem-vindo ao Casulo, Senhor...?
“-Senhor... Bom começo! Senhor quem e em que circunstâncias, pode me dizer?
“-O quadro parece evoluir para Dissociação Episódica Inespecífica. Até breve!”
Perplexo, só lhe ocorria que a tampa de seu crânio fora serrada e o cérebro, exposto, prestava-se à monitoração da reatividade de algumas estruturas. Mas, com que propósito, experimental (de quê?) ou terapêutico (para quê?)... Vacuidade; um tanto faz.
Encarava as coisas do cérebro, no entanto, sem perplexidades. A dor (que eu não sentia, pois, no cérebro não há dor, nem luz), o sentido do tempo (este que se mantinha preservado, até por saber que, o que quer que estivesse acontecendo consigo, a premonição já lhe narrara...) eram parte de um festival particular de discretos aminoácidos, de cujas peripécias era um mero coadjuvante, nada iluminista. Torpor, nenhum, exceto o nome do artista de quem recordo alguns cartuns de humor e a fala de um personagem: “Que direito tem meu cérebro de se chamar de eu?”, perdida no tempo.
Então lhe apresentaram num plasma que se descortinou, do nada, diante de meus olhos, um retângulo, no interior do qual, uma frase e um diagrama, também retangular, com um signo dentro, pareciam dispostos a mensurar ou aferir algo de si: “CONFESSA QUE PRETENDE”, lia, e olhava o signo sem nenhum sentido ao lado. E, fosse lá o que fosse, trazia alguma atração nova àquele festival neuroquímico, com suas substâncias bailando a deriva, à revelia de qualquer evento externo que lhes exigissem algum alvará e se assenhoreasse do meu tempo narrativo, até então, todinho de seu cérebro-música só.
“-Alô! Quanto tempo passou desde que estive fora daqui até agora e este teste?”
“-Exijo meus direitos de paciente desta porra! Ou os direitos dele, de cobaia, é!”
“-Meu tarefário está em dia, impostos idem! Cárcere privado? Ditadura cyber!
Por mais que eu berrasse não lhe retiravam o bizarro teste do plasma nem o próprio plasma de seu campo visual. “Premonitar está proibido pelas neurociências?”, brincou, tentando divertir-se com aquela bizarrice toda, para além do risco de, sei lá...
Se ainda tinha o tempo subjetivo como soberano daquela narrativa pueril, este começava a lhe doer no estômago; sentia o nervo vago. O paciente-cobaia precisava agir e gritei-“Não tenho pretensão de ser confessional!” Até porque cerceada a tensão:ser-se!

sábado, 2 de maio de 2009

"COISAS DO BRASIL"




"COISAS DO BRASIL"


Coisas? "COISAS"?

Sim, coisas do Brasil! Canção d'um poeta excelente e brasileiro: Guilherme Arantes!

Esta "deu poema"! Post! w w w marcelofinholdt . blogspot . com

Esboço, apenas um Esboço.

A vida esvaindo-se, buscando o céu
O céu sem dar as mãos...
Um caminho com a mão esquerda na Terra
outro indicava:
"Ordem e Progresso"
A mão direita...
...no único e verdadeiro CAMINHO!

Esboço, apenas um esboço.
"Forte abraço, força sempre!"

Logo virá a poesia, pois, agora digito.

Um abraço os amigos-irmãos,
onde quer que estejam.

Marcelo

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ofélia?... N'Ofélia!




Todo mineral espera: mineral, patas, agua, sol, vegetal e reticência!

Marcelo Finholdt - 09/2003


Esperar! Sim, do verbo ESPERAR! ESPERAR=SENTIR!

terça-feira, 14 de abril de 2009

ATENÇÃO: Boa parte dos meus textos apenas por mais dez dias!

Textos estarão expostos no www.mesadoeditor.com.br apenasaté o próximo dia 20/Abril

segunda-feira, 6 de abril de 2009



Na cozinha foi assassinada a mosca... outras quinhentas apareceram para o velório.


Marcelo Finholdt - janeiro de 2009


Caríssimos amigos!

É com prazer que posto aqui uma
tentativa de resumir!
Sim, pois quem
resume prosa com extrema propriedade é o amigo (psicanalista e escritor) Marco Antônio de Araújo Bueno.

Faço trovas com mote e glosa, mas a trova é outra questão completamente diferente da prosa e sinto muitas dificuldades em resumir prosas a poucas palavras, daí percebo o grande valor que há em tal façanha!
Postei este verso único, pois os amigos gostam muito dele e vivem a citá-lo.

Um abraço.

Marcelo Finholdt

"Baixo-ajuda"-Microconto monofrásico, dez palavras

Ânsia por tempo tem importância não, escreveu. A ansiedade baixou.

(Ouça leitura no www.gengibre.com.br , CANAL> LITERATURA > araujobueno)

quarta-feira, 1 de abril de 2009




Vórtice do desejo
Pour Lizandra Amoroso,
une belle femme.

Mote
Entre os vértices eu vejo
O horizonte em sua face;
Dentre o vórtice vivace
A abarcar até o desejo.

Glosa
Em meus olhos benfazejos,
Periféricas alturas...
Vem seu rosto na candura,
Entre os vértices eu vejo.

Elegância, brilho e classe,
Num semblante leonino,
Faz-me ver o que é Divino:
O horizonte em sua face.

Seus cabelos um impasse,
Meu impasse... sem cabelos,
Deste vórtice os anelos,
Dentre o vórtice vivace.

Entre o giro deste arpejo,
Ventania, comunhão,
Sentimento, furacão,
A abarcar até o desejo.

Marcelo Finholdt – 06/2007

Ver é mesmo fascinante, enxergar, para criar é o bastante!

Sempre tive aqui comigo umas regras de conduta um tanto estranhas, nada patológico, mas não muito "comum" sob o ponto de vista da psicologia, creio eu.

"Pradão" hoje cursa - justamente - psicologia na UEL, um grande amigo das noitadas na mesinha do extindo e saudoso "Calabouço Rock Bar", de onde víamos a Karina (Pinduquinha vizinha do bar), chegar toda bela de Corsinha cor chumbo, roupas belas, um lindo corpo e rosto. "Taí!" Disse! "Esta é uma senhora musa." Disto para frente nasceu um incrível debate/ embate acerca do tema: "MUSA".

Bem, para mim, até hoje uma musa tem que ser somente "a musa" e nada mais. Não pode, não deve sequer sonhar que é musa de algum poeta/ artista. Percebo que se há percepção por parte da mesma, o encanto se perde e tudo se esvai num redemoinho incontível e ligeiro, como num furacão, num vórtice. Caso contrário a musa deixa de ser musa e jamais consigo escrever algo inspiradamente na mesma. Defendo a opnião de que a musa passa a ser, no mínimo, "conhecida" do artista, cria-se um laço além do sublime campo da visão, o que destrói, automaticamente, toda a sutileza de um dos privilégios divinos que temos: o da contemplação. "Pradão" sempre defendeu o oposto, que toda musa pode ser potencialmente o que for em relação ao artista: mãe, filha, esposa, amiga, amante, conhecida e também desconhecida.

Lizandra era desconhecida e, num incidente, inocentemente "abrí o bico" e desfiz toda a magia que me faz escrever para outras pessoas. Aos poucos e lamentavelmente, os versos pararam de jorrar...

Quando escreví a série "Vórtice do Desejo" composta por cinco poemas em formato arcaico, eu já sentia do que era composto este furacão, eu já percebia que corria contra o tempo, sabia de fato que além da beleza e doçura da musa, "Chronus" também foi um senhor igrediente aos cinco poemas.

Era a poesia que agonizava e num voraz "Sprint" final, tecia seus últimos versos.

Karina da Cruz D'Antônio ainda não viu seu soneto publicado em meu livro "SONETOS" - Cinquenta sonetos em verso alexandrino. Qualquer dia faço uma visita, visto que há cerca de quatro anos não a vejo.

Lizandra Amoroso é, e sempre será, uma pessoa ímpar, de muita estima e consideração.

Rodrigo Prado "Pradão", vez em quando, aparece aqui no sertão para bebermos umas.

A poesia segue: trazendo novos amigos, conhecidos, musas, prêmios e principalmente VIDA!

Um beijo à todos vocês meus amigos, meus amores.

Marcelo Finholdt



quinta-feira, 19 de março de 2009



Soneto XLI

“Não suporto frescura, inocência incomoda,”


Dedicado à Aparecida Rocha (in memoriam)
E a sua neta impertinente.




Celulite, pelanca, isso é bom, faz-me falta,
Gordurinhas, pneus, mechas brancas são belas,
Quero sempre arranjar uma velha donzela,
Botarei novamente este assunto na pauta...

Não procuro ninfeta empinada, peralta,
Quero ruga com ranço e bastante barbela,
Quero é ser seu avô, sem maiores mazelas,
Não procuro modelo... há magreza, são altas.

Sempre corro se vejo: uma pele esticada,
Bom perfume, pintura e umas roupas da moda,
Mente fraca, noviça, esta sim é mancada!

Não suporto frescura, inocência incomoda,
Não sou pajem, babá, pra noviças sou nada,
Quero só sua avó. E você? Dentre a soda!


Marcelo Finholdt

Prezados amigos! Bom dia!

Após vários pedidos é com prazer que posto este soneto, também publicado nos "SONETOS" - Cinquenta sonetos em verso alexandrino, de minha autoria - Dezembro de 2006. Não há muito o que dizer sobre o soneto, visto que o mesmo encarrega-se do fato, falo então das amáveis pessoas a quem dediquei-o.

Aparecida Rocha era uma excelente pessoa e professora. Aparecida vivia nas ruas e tive o privilégio de conhecê-la por volta de 1989, quando residi perto da estação ferroviária em uma das cidades onde estive. Eu tinha apenas dezesseis anos, ela cinquenta e dois, quase bem vividos.

Ensinou-me sobre literatura durante tardes e tardes, sentada comigo na praça, às vezes, por um prato para o almoço, às vezes para uma de suas netas, ou um trocado qualquer para passar o dia. Jamais esquecerei: Capitães da Areia, Dom Casmurro, O Mulato, etc.

Foram vários livros que lemos, enquanto, para o desgosto de uma de suas netas - "contemporânea" minha - iniciamos um romance! Daí a dedicatória do soneto.

Foram poucos meses, assim como foram todos os quatro únicos relacionamentos que tive em minha vida, porém de uma intensidade infinda! Sim, infinda! Infinda porque sentimos com a alma. "Todo início, jamais acabar-se-á!" A frase acima é uma das que Aparecida gostava de citar. Falecida em 1997 deixou aqui e, tenho certeza, muitas saudades nos corações que com ela conviveram.

O HIV a levou para outras esferas existênciais, mas aqui os que a amam, continuam a cultivar as boas sementes que ela semeou! Meu próximo livro será inteiramente em sua homenagem.

Aparecida Rocha foi quem ensinou-me sobre o que realmente vale nesta vida. Uma lição de amor que jamais esqueceremos!

P.S. A foto é apenas ilustrativa e, para divertir também!

"Forte abraço, força sempre!"

Marcelo Finholdt


quarta-feira, 18 de março de 2009

"Holograma"- Conto breve,sci-fi, com toque experimental

“Holograma”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno


Com seus parcos recursos, morando distante dos Núcleos de Segurança, aquele colapso da energia desconfigurou-lhe em sua noção de pertença, de conexão mínima com os seres de qualquer natureza. Prudência, Mitcei!, ruminava. Sensação de cessação...
Dos medos, o da putrefação de suas provisões, parcas, e dos micro-organismos morais que o assaltariam, puntiformes ou em bloco, precavia-se com algas e mantras. Plantou em si alguma ira. Medo e raiva que se excluíssem mutuamente. Dormiu.
O que o despertou de um sono branco foi a barulheira do silêncio. Um silêncio geométrico e pantanoso conspirava por onde quer que a vista tocasse. E que o tocava também; pupilas dilatadas, turbulência circulatória – serpentário virtual, onipresente.
Tempo e silêncio, este binômio do luxo e privilégio de castas predatórias, pois sim, mas Mitcei sabia que a falta deste era suportável pela impossibilidade daquele.Acuado, viu-se refletindo como filósofo. Refletir, agora, – outro luxo. Agir, sim.
Refazer o trajeto civilizatório, recuperar tecnologias – agir com as mãos, esculpir objetos! Então, reaver imagens que confirmassem sua condição humana, de civilidade, ainda que parca, porque ele era assim recluso, refratário aos elos civilizados.
Usou resina antiga para moldar uma dançarina com espátula – ei-la! Tosca, porém – tangível, direto de sua imaginação sedentarizada. Mitcei apelidou-a: Altamira. Arriscou-se a capturar algo de Sol, na falta do laser, e da reconstrução do campo óptico dentro de um cilindro surgiu a holografia de Altamira, posta em pedestal. Não se movia, não dançava a dançarina; caberia a ele orbitar à volta dela, recitando os mantras que ela lhe inspirasse, oscilante como os feixes de luz solar. Teve alucinações; pensou ouvi-la recitar.
Às vezes pensava no seu tarefário, no tudo que deixara de fazer. Prudência, homem! E desabava soterrado pelo dever de fazer, de plantar. Por quanto tempo essa inflação de tempo? E cessada a cessação, que outra sensação?
Masturba-se às vezes, noutras, deambulava a esmo pelo iglu que recobriu de lã sintética. Às vezes, apavorado e desnutrido, esbarrava em vultos. Por onde teriam violado seu recanto? Teriam descoberto Altamira? Altamira sequestrada, dessacralizada?
Armou-se, inflamou a ira para neutralizar o medo. Altamira suplicou-lhe proteção, já não mais recitava nunca! Retirou-a do cilindro, destruiu o pedestal e o campo óptico. Envolta em celofane, pensava ouvi-la sussurrando, como se privada dos sentidos.
A espessura daquele silêncio...O espectro da insanidade. Quanto tempo dura uma privação assim? Um fenômeno global? Dariam falta dele, o Mitcei refratário, recluso?Saberiam da tutela de Altamira que sussurrava entre suas luvas congeladas? O fim?
Uma draga que percorria a região pousou à distância segura. Pandemia de malária, nômades revoltosos, vazamento radioativo...sabe-se lá. Do interior do sítio, murmúrios indecifráveis. Alguém registrou (à margem): “Assemelha-se à cantiga de ninar”.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

"Mea Culpa" (até por ter postado prosa, não poesia)

“Mea culpa”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno


Pequena multidão, eclética;
Congraçamento cúmplice,
Acolhedor, homogêneo.

De fronte à Matriz, ascética,
Jovem estirado num banco
Recobra-se (temporal crise epilética).

Ergue-se do caos; constrangimento;
Disfarça a cicatriz da baba ao lado
De gente alheia a seu momento.

Meus olhos acompanham; acaba
Ali, empático, nosso sofrimento sumido
No meu distanciamento, antiético, assim?

Pois ajeitando cabelo em face pálida,
Por fresta entre vultos e ruído em volta,
Volta e crava os olhos justo em mim.



{Este poema concorreu ao "Off-Flip/2007"}

sábado, 14 de fevereiro de 2009

"O Pacote"- Conto breve, sci-fi- a V.Gogol e Борисович

“O Pacote”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno



Dava para cortar o silêncio com estilete quando ele irrompeu pela escotilha, esbaforido de sofreguidão antiga, dos tempos da permissão sexagenária.-“ So tired... ”! Sou eu mesmo e estava em silêncio, que pacote é esse?-“ Serve pra manter a gente esperto; gente que eu digo, sou eu; pra vocês, pode virar caixa de Pandora. E esse silêncio precioso, lá fora, conspira contra a integridade física de quem se orienta COMO GENTE”, gritou, e me pediu um estilete. Que palavrinha mais subversiva, ousei, para serená-lo – posso te denunciar à PH do condomínio...Que tem aí dentro desse pacote, seu velho paspalho, baterias? Células recarregáveis?
-“Antes, camarada bundão, a Patrulha Histórica que vá pra puta que pariu; trouxe caneta de escrever mesmo, alcaparras, lâmpadas opacas, lã de vidro, remédios para dormir e um rolo de barbante, para esparrelas de labirinto. O que é esparrela? É tudo isso aqui que ronda a sua burrice adestrada. De alcaparras nem se lembra, não?” Vagamente, condimento... “-É, é bom sinal diferenciar condimento de condicionamento. É pra reavivar o sensorial do comer; um ovo quente, de salmonelas amigáveis e o grão da alcaparra, um só – e a sensualidade espraiando-se pelas papilas, enquanto você vai sorvendo a leitura desses ácaros cheios de livro impresso; carregados...”.
Nada prenunciava o que faria adolescer o velho ºªCidart (assim digitava seu nome) madrugada adentro. Tossia muito, ambiente pressurizado, livro velho, nostalgias velhas. Ele, o ºª, de pronúncia seca, seu prenome, com seu sobrenome-índice velho e sua tosse seca; uma temeridade à homeostase sempre em risco quando irrompia pela escotilha. Servi o chá e ele de olho no pacote – onde o colocaria a salvo de minha legendária curiosidade (devia estar calculando). Ácaros transgênicos têm radioatividade? Talvez precise de pílulas para dormir em paz...-“Tome seu chá e ao termina-lo, erga o pacote ao terceiro nível da bancada, na altura dos meus olhos. Amanhecendo”.
Tossia e arregalava os olhos fixos no pacote, A temperatura caíra muito lá fora, mecanismos oxidados não impediam um ar gelado de entrar sabe-se por onde. Feriado amanhã – dia do Desapego e Jejum. Jogos comemorativos, caminhadas rituais das tribos todas; nada de técnico para reparar vazamentos. De um salto sacou a caneta antiga: - “Here you are, catch!”. Falava pausado, como um nobre: “vou soletrarrr, letrinha por letrinha, devagarzinho... por obséquio, boy. – desenrosque a tampa devagar”.Falava ofegante, hipotermia, insuficiência respiratória: - “G O(sim, ir, aonte? Socorro?) Não, porra, prossiga: G O L (Gol de quem? Jogo?) Do Capote, bundão, Cap...!

É...

domingo, 20 de janeiro de 2008




http://www.youtube.com/watch?v=FE3YYJCsSug


Caríssimos amigos!

Brevemente postarei aqui uma série de poemas - desta vez em prosa - que comecei a compor durante minhas viagens pela região onde resido: nas pausas do dia-a-dia, numa espera de rodoviária, durante o próprio trajeto de uma viagem, antes de alguma apresentação musical, etc. Aproveitei para dar vida à esta obra que intitulei de “OFÉLIA” e que não sei se terá um final, ou se passarei toda a vida em sua companhia, apenas sinto um imenso prazer quando prossigo com a tal. Graças à “OFÉLIA” essas esperas – que eram sem sabor – agora são curtas e cheias de graça, imaginação e poesia. Um texto simples, com simples e poucos personagens em uma história diferente, que se passa durante a idade média.


Pretendo publicar o trabalho sob este mesmo título: "Ofélia", com dedicatória à memória de Aparecida Rocha, professora de literatura, andarilha e uma das mais doces e verdadeiras pessoas que conheci em meados de 1989. Simplesmente a pessoa que ensinou-me a ver o que realmente vale nesta vida: apenas as lembranças dos bons momentos com as verdadeiras amizades e também verdadeiros amores.



Segue abaixo o primeiro poema, com um abraço a todos vocês, meus queridos.


Ofélia I


Vi Ofélia nos campos de trigo.
Vi ao longe, colhia...
Vinha de longe o olor da camponesa.

Estranho o vento;
contém sem conter, sem reter...
Trouxe Ofélia nos braços,
deixou-a bem ao meu lado.
Eu? Senti o perfume da presença.
O vento? Desapareceu misteriosamente.

Foi assim que... pela primeira vez
fundi-me à pele dela,
ela nem percebeu,
foi num supetão e,
ao mesmo tempo, muito sutil...



Marcelo Finholdt - início de 2006






sábado, 19 de janeiro de 2008






Sonetinho acróstico!


Dedicado à amiga portuguesa
Paula Patrícia Figueiras Barradas.


A afeição é o melhor sentimento que temos,
Pra ser próximo é só ser amigo e consciente,
Avistar a distância é saber, que pra gente,
Um só mundo é pequeno e de longe mantemos...

Leve e intenso contato através de outros meios,
Ah, quem dera se a Terra ostentasse mais terra,
Portugal não seria esse sonho que encerra,
A ansiedade abafada através dos correios!

Testemunhe o soneto onde eu falo o que sinto,
Reative a amizade entoando um bom canto,
Imagine a poesia ao sabor de algo tinto...

Continue a ser, sempre, essa amiga, esse encanto,
Inspirando poesia a um menino distinto,
Através desse amor, que é tão frágil e santo...

Marcelo Finholdt



Paula Patricia!

Dez anos de bate-papo: por telefone, pelos correios ou pela NET mesmo!
Dez anos de amizade, troca e principalmente muita, mas muita cultura mesmo, uma amizade "intelectual" e infinita.

Obrigado PP, por ser assim, tão gentil e humilde, tão divertida e inteligente, obrigado por ajudar-me com o nosso amigo F. Nietszche e outros tantos que já badernam meus pensamentos e idéias.

*Paula Patricia é formada em Filosofia pela Universidade de Coimbra - Portugal, professora e amante das artes, brasileiras também.

Forte abraço, força sempre à todos aí no sul da "Terrinha."

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007





Balcão de corvos.



Mote


Logo os corvos só dormiam,

Pois achavam-se experientes,

De um só olho então doentes,

Para o que eles não saciam.



Glosa


De um balcão, faziam beira,

Corvos cegos, indecentes,

Pois achavam-se experientes,

Tudo olhavam sem maneiras.


Corvos sãos? uns sãos boçais,

De um só olho então doentes,

Logo o tal, intermitente,

Camuflado em seus anais...


Logos os corvos só dormiam,

Muito riso, uísque e o gesto,

Deste modo vil. Honesto?

Corvos! nada percebiam...


Riam, riam e gemiam!

Demonstravam plenitude,

Artifícios de atitude,

Para o que eles não saciam.



Marcelo Finholdt - 06/2007

Village American Bar (extinto e um tanto saudoso)

Foi lá que vi os corvos junto ao balcão, olhando todas as mulheres, sem

qualquer respeito, discrição... muito menos quanto aos comentários.

Ocorreu-me a luz, esbocei o poema imediatamente e fí-lo no dia seguinte.

Dizem que é um êxito e tanto.

Um abraço à todos.

Marcelo Finholdt


segunda-feira, 1 de outubro de 2007



MARCELO FINHOLDT em 09/2007


Descobri que sou alado logo após atirar-me ao abismo...
depois... ah, felizmente nunca mais pisei a Terra!

MARCELO FINHOLDT - 09/2007

sexta-feira, 7 de setembro de 2007


Prunus Persica

Inspirado em Domila Pazzini, com carinho.


Mote

Pesseguinha cheira à rosa,
Rosa é flor de forma bela,
Bela! mote para a glosa,
Glosa: rosa flor que é ela.


Glosa

Pesseguinha cheira à rosa,
Sorridente e com covinhas,
Amorosa e toda prosa,
Ela é rosa: pesseguinha!

Rosa é flor de forma bela,
Desconhecem mais doçura,
Nunca assim pensaram nela:
Dolce rosa, rosa cura.

Bela! mote para a glosa,
Pessegueiro novo céu,
Pesseguinha é amorosa,
Vai além, além do véu.

Glosa: rosa flor que é ela,
Faz o pessegueiro ver,
Que sem ela nada vela,
Que sem nela nada é ser!


Marcelo Finholdt

domingo, 5 de novembro de 2006



Vou contigo a Ouro Preto, onde existe a saudade...
Sei que Minas Gerais é uma terra querida,
Bem pra lá me dirijo e curando as feridas,
Volto mais animado e retomo a vaidade.

Tenho tempo pra tudo e me esqueço da idade,
Não me importo com tempo e a vaidade é esquecida,
Trago um belo sorriso, é assim que eu vivo a vida,
Dividindo e brindando a total mocidade.

Pães de queijo e café na manhã que anuncia
Uma tarde de frio, umas pilhas de lenha,
Fumaceira no fogo o fogão já fazia.

O calor aumentava, acessei logo a senha,
Resolvi te servir esquecendo a poesia,
Pra depois escrever só de ti... a resenha!

Dedicado a Minas Gerais, e conseqüentemente, ao bom povo Mineiro.

O povo mineiro sempre cativa meu coração.
Quando lá eu me encontro, sinto outro planeta, realmente sinto que estou em casa, nada explica o fato, a não ser a hospitalidade e a originalidade deste povo. Não sou fanático, não tenho apego a determinados lugares, mas, aparentemente sem qualquer explicação definitiva e/ ou concreta, tenho uma imensa satisfação quando lá estou, ou simplesmente quando falo de lá. Creio cegamente que somos todos iguais, somos terráqueos, mas digo sempre:

- Ah! como é bom ser terráqueo em Minas Gerais, juntamente aos nativos do lugar!

Um abraço a todos nós. Terráqueos!
mfinholdt@ig.com.br


quarta-feira, 4 de outubro de 2006



Conversar, respirar, conversar, respirar.
Esta é a vida de Aline, a menina da fala,
Conversando, sem ar, nunca Aline se cala,
Respirar, conversar, respirar, conversar...

O que Aline mais sabe é tão bem se expressar,
Soam sinos e Aline a sua úvula estala,
Sempre Aline é oradora e nas festas badala,
Gesticula e transmite o recado ao falar!

Sempre é bom aprender, discutir pensamentos,
Ser, às vezes, Aline ao ousar tantos temas,
Matracar e fazer ecoar bons momentos.

Vê-se Aline com luz, alegria e dilemas,
Animando a conversa ao sabor dos bons ventos,
Bem falando em crescer e enfrentar seus problemas!


Dedicado à Aline Fernanda Marques Oliveira,
uma pessoa e cantora excepcional.





Algumas pessoas só não são consideradas comuns, por algum detalhe, ou diferencial que trazem consigo.
O caso de Aline Fernanda Marques Oliveira é assim. Aline é uma pessoa... parecida com um poeta: vive num mundo todo particular, que nem sempre se relaciona com o mundo coletivo, real, palpável, concreto. Mas há um paradoxo: Aline é muito tagarela, serelepe, também gosta de poesia, adora declamar extensos poemas e... é a cantora mais afinada com quem tive o prazer de estar e cantar junto.
Faladeira, muito feliz, de bem com a vida, Aline é energia pura.


Segue abaixo, um pequenino texto que a mesma escreveu em um dos meus caderninhos de literatura:

“Marcelo: Você acha que é poeta por escrever poemas, mas poeta não é. É um sonhador que apenas coloca nos papéis suas angústias e problemas.

Você é muito mais do que um simples sonhador, além de sonhar e escrever bem, você vê que os sentimentos são sublimes, e que está sonhando alto com um grande amor...
Você é um amigão! Apesar de ser bem saidinho.”


Comentário de Aline Marques - início de 2003


Marcelo Finholdt


mfinholdt@ig.com.br

sexta-feira, 23 de junho de 2006


És charmosa de fato e ofereces mais vista,
Fazes sombra com brilho às demais da cidade,
Gasto versos pra ti que possuis tal vaidade,
Hesitei por demais a te ver como artista!

Impressionas o belo ao inspirar minhas rimas,
Judiaria seria a poesia sem via.
Lembro sempre da rosa à mulher na boemia,
Movimento o violão ao lembrar de outras primas.

Na verdade o que faço é sentir só prazer,
Ora são, ora não, o que importa é o orvalho!
Pois se passo por ti logo sinto o viver...

Quero flores com mel, das abelhas trabalho!
Restam lírios pra nós, pois só falta cozer...
Sinto o corpo dormir, não me esperes, eu falho!


Dedicado à rua Catorze, escrito durante uma das
madrugadas de boemia e seresta sob a égide do céu...


Marcelo Finholdt
mfinholdt@ig.com.br

És de fato elegante e me excitas a vista,
Fazes pose e és destaque por toda a cidade,
Gasto tempo pra ti, dona de tal vaidade,
Hesitei longo tempo a hesitar como artista!

Impressionas por ser assim feita de rimas,
Judiaria seria a magia sem via,
Lembro a casa que é azul, rosas nuas, boemia...
Movimento o verão, vejo as Veras e as Primas!

Na ciranda da vida escolhi ter prazer,
Ora eu sou, ora tu és, entre nós nosso orvalho!
Pois vivemos pra nós, isto sim é o viver...

Quero o fruto da flor que me inspira ao trabalho,
Restam flores que não mais se podem cozer...
Sinto o lírio viver, pois me esperes, não falho!


Dedicado à rua Catorze, escrito durante uma das
madrugadas de boemia e seresta sob a égide do céu...


Marcelo Finholdt
mfinholdt@ig.com.br


Certa vez, em uma das minhas “andarilhanças” pela cidade, notei uma rua especial. Uma rua que conheço desde tenra idade. Rua Catorze, a rua da avó Emília, onde minha irmã e eu almoçavamos Nhoque aos domingos com toda nossa família paterna.

Após o almoço eu ficava no alpendre da casa, admirando a rua sempre limpa, seus sobrados, suas plantas floridas e as casas de arquitetura antiga, cheias de história. Era um encanto. Eu? Eu tinha apenas nove anos.

Certa vez, depois de uma década e meia, já adulto e boêmio, fui lá com uns amigos a fim de “apoderarmos” de algumas dúzias de rosas dos jardins da casinha azul, com o intuito de fazer serestas para umas moçoilas da cidade. Eram... as rosas, um dos igredientes de nossas noites daquela época, juntamente às bebidinhas, o violão, cigarros e muita, mas muita poesia mesmo.

Nossa casa? Não havia outra, a não ser o asfalto como piso e o céu o forro, o teto de nossa libertinagem. (para não dizer vadiagem)

Um dia, sozinho na madrugada e na ruazinha em questão, fiz este poema. Encostado no carro, a bebidinha ao lado, lírios no painel, violão e aquela solidão de sempre a me acompanhar! Produzi catorze versos em puro “delírio”, versos estes que são os do primeiro soneto.

O segundo, trata-se de um pequenino e imbecil arrependimento por aquelas noitadas de delírio e poesia, por isso a contradizer o primeiro soneto.

Um abraço aos amigos Bardos, assim feito eu, e a todos que possuem sensibilidade para sentir as coisas, que por mais inanimadas que sejam, nos passam toda a sua energia, sua história.
Sintam meus amigos, sintam com o coração! enquanto puderem...



Marcelo Finholdt – 23/06/2006

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006




Capitão é um poeta à procura de Iara.
Lá da proa ele avista a menina de aquário,
Acelera e comanda o mais belo corsário,
E com a bela menina ele então se depara!

Bem à frente ele vê o que se vê cara a cara,
E o mais belo poema aparece ao diário,
A menina não vê de onde ele é originário,
Logo após bem entende e sua mente se aclara,

Pois Iara é serena e tem nome Moreno!
Capitão reconhece o que é belo ao remar,
Vai remando no dia e escrevendo ao sereno...

Capitão é um poeta existente no mar,
Aprecia a beleza e com vinho chileno,
Faz poesia pra Iara a ele mesmo encantar...


Temas Marinhos

Pense em estar cara a cara com Iara Moreno... e é mesmo preciso estar para compreender a simplicidade deste soneto, pois o verde que os olhos da menina exprimem, junto ao semblante sereno, tranqüilo e muito bonito... ah... é mesmo fascinante.
Iara, contralto de um coral que fiz parte, olhos bem verdes, pele clara, cabelos castanhos-escuros. Vestia-se constantemente em cem roupas de cor azul-clara, clarinha... aquilo prendia mais ainda a atenção, mas faltava formatar, identificar o estilo daquela tênue beleza. Faltava algum elemento, faltava algo, algo para fazer vir à tona o que inconscientemente vi.


Veio, enfim, a gota.

Num fim de tarde, horário de verão, “eu estava a navegar” de porteiro de teatro, esperava o início de um dos ensaios do coral que fazíamos parte, quando, num repente, surge um carro branco feito neve.

Era! eram as cores, os olhos. Eram os mares, os céus. Enfim: tudo e nada ao mesmo tempo... era... a ponte. Era simplesmente humano.
Assim, o soneto desenrola-se em alto-mar. Um mar verde, um céu azul, e atrás, atrás desse mar, uma grande gel[ad]eira branca, sendo derretida pelo calor. Frente ao mar: o corsário (a varanda do teatro) e Capitão derretendo-se , apenas... por estar cara a cara com Iara.

Iara Moreno. Uma beleza das águas... estilo, Iemanjá, talvez aquariana...


Agradecimentos a amiga Nadime Igniçõõõõões Capriolli’S, ScapafarpasSsS, Cannelones, Lapis’práellasSsSsSsSs, por, amavelmente, ter apresentado-me ao Sr. ORKUT. D’onde “revi” Iara Moreno, (entre outros maravilhosos seres), após séculos de poesias, sonetos, baratas, notas, prêmios banais, e, porque não: Alguns meros e novos receios e recreios.

Agradecimentos ao amigo PIRATA DO UNIVERSO, Matheus, o cara,
(de Aroeira, óbviamente), pelo incentivo à escrita.

Marcelo Finholdt – Nalgum mês de 20.000

mfinholdt@ig.com.br

terça-feira, 13 de dezembro de 2005



A casinha é laranja e tem brancas janelas,
É um laranja bem forte a ascender todo o astral...
Na varanda há um vazio, um vazio sem igual,
Lá um alguém existiu, com uma face tão bela...

Existiu uma moça amorosa e singela,
Inocente donzela a avançar sem o mal,
Na procura do amor, coisa tão natural,
Deixou logo seu manto ao mostrar quem é ela.

No jardim desta casa, a menina está a ler,
Uns poemas de amor junto a seis margaridas,
Ela espera um poeta anunciar que vai ter,

Uma vida esculpida onde não há ferida.
A menina ainda lê e o poeta é esse ser,
Que faz ela existir, pois também vê a vida!



Existem situações inusitadas e, aparentemente simples, porém de explicação um tanto complexa, espiritual, anímica...
O caso da “casinha laranja” é um exemplo que até poderia passar desapercebido, mas, eu jamais poderia permitir tal fato e, é exatamente por tais fatos existirem que este texto existe, minha poesia, e este blog também. Sempre fui admirador da natureza, por isso, nas cidades, vejo as praças como verdadeiros oásis, sempre meus trajetos são construídos com o propósito, óbvio, de chegar ao destino desejado, mas, também com o intuito de passar por todas as praças possíveis. Calhou certa vez, de eu estar mesmo viciado a passar pela praça da Bandeira, em Barretos – SP, onde, logo ali pela esquina, sito à avenida dezenove, esquina com a rua seis, avistei uma singeleza da arquitetura, uma cor forte, forte... não pela tinta, mas sim pela energia que transmitia aos meus olhos, e conseqüentemente ao meu espírito. Forte cor laranja, janelas, portas e enfeites brancos, arquitetura antiga e a tal energia. Como era bom parar pela sua frente por alguns segundos, e olhar, olhar, olhar e olhar... olhei e jamais vi alguém na “casinha laranja”, que possui uma varanda de aspecto aconchegante, mas muito triste, muito triste mesmo, talvez por eu jamais ter visto alguém ali, com os braços na mureta, ou sentado em suas cadeiras, etc. Fiquei inconformado e passei a passar mais por ali, passei a enxergar uma figura feminina e inocente, talvez uma pré-adolescente ali na varanda. Um dia esbocei o soneto acima, mas a menina continuava a incomodar e eu não sabia de onde isso vinha. Parecia ser uma criança solitária, sem companhia, sem amigos, família... Finalmente, num belo dia, lá pelas redondezas da pracinha e da tal “casinha laranja”, percebi tudo... como estavam aguçados os meus sentidos.

Fiquei impressionado comigo, com minha sensibilidade, e, ao mesmo tempo com minha distração. Percebi simplesmente que: Em frente a casinha laranja há o orfanato “Sagrado Coração de Jesus”, justamente onde ficam abrigadas meninas abandonadas, órfãs. A priori nem sequer percebi, mas, logo após, enxerguei o que havia feito, e nunca mais duvidei da existência da energia poética que habita pessoas, lugares, situações, etc, visto que jamais existiu alguma menina ali, naquela varanda citada no soneto. Não que eu tenha visto.

Um abraço de Marcelo Finholdt.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005



Caroline voltou, Caroline e um mistério:
Hesitou e não disse a que vinha... sorriu...
Caroline chorou e em minh'alma buliu,
Futricou, revistou, revirou todo o império.

Caroline deixou todo o clima piério,
Fustigou, provocou, expulsou todo o frio,
Caroline é um mistério a soar feito rio,
Transmutou do planeta um de seus hemisférios.

Caroline sorriu e chorou longamente,
Acendeu toda a luz da casinha modesta,
Cultivou, semeou, adubou as sementes...

Caroline cantou com carinho na festa,
Instigou, cutucou, assanhou docemente,
Fez-se ausente e não disse o porquê da requesta...


Coisas da vida?

Mesmo sem minha permissão Caroline invadia e, infelizmente, descobri agora: ainda invade meu coração. É incrível, mas não consigo estancar o fato que traz-me algum incômodo, perplexidade e uma pequenina indignação...
Ocorre que em se tratando de outras pessoas, sempre consigo barrar tais invasões com muita facilidade... mas nunca, para isso, uso escudos quaisquer, para isso, sempre me transformo em peneira, e logo a energia invasora passa através de mim. Mas Caroline não... Como pode? Acho incrível, Caroline não passa pela peneira, fica ali, grudada, espalhada por entre seus fios, que por mais esparsos que sejam, e são mesmo muito esparsos, nada conseguem fazer, a não ser reter a energia invasora. Quando digo invasora, não digo que seja malévola, e sim algo atrevido, serelepe, talvez até inocente, ou até mesmo natural.
Caroline consegue de fato acender a luz do meu coração modesto, e, logo após, faz-se ausente.


Coisas da vida, da poesia também...

Marcelo Finholdt

mfinholdt@ig.com.br

terça-feira, 6 de dezembro de 2005





Dedicado a Andréia Formenton Mesquita.*


Foi um fruto do outono eclodindo na vida...
Foi um gesto de vida, inspirou versarias,
Foi a luz de um escuro e o escuro de um dia,
Foi à vida sem medo e encontrou a partida.

Foi de vez para a vida, iniciou-se na ida...
Foi um gesto de vida esbanjando poesia,
Foi de fato feliz fomentando alegria,
Foi um belo sorriso, uma fé incontida.

Foi o fim do começo esbanjando beleza,
Foi sutil e vistosa, era flor: Azaléia!
Foi o oposto do não, foi o sim de Teresa.

Foi então o resumo, era mesmo uma Déia!
Foi tão simples, porém demonstrou sutileza,
Foi, vem sendo, será sempre assim: Só... Andréia.



Não conheci Andréia mas, trago aqui comigo outra sensação. Ocorreu-me grande simpatia, quase um "rapport", assim que avistei sua lápide. Havia algo ao redor que pedia... algo. Eu já sabia o que era... era novamente poesia, poesia pedindo para nascer, mas... desta vez pensei estar indo longe demais, afinal: poesia para falecidos? Porquê? Para quê? Entendi que jamais precisei de motivo qualquer para escrever, muito pelo contrário, sempre precisei de excelentes, raros motivos e, literalmente "pari" o soneto acima.


Abraços, Marcelo Finholdt - 12/06/2005

mfinholdt@ig.com.br